Dragao barbudo adulto de escamas alaranjadas pousado num tronco dentro de um terrario, com a papada espinhosa bem visivel debaixo do queixo

Qual o melhor lagarto de estimação e o que diz a lei

Dragao barbudo adulto de escamas alaranjadas pousado num tronco dentro de um terrario, com a papada espinhosa bem visivel debaixo do queixo

Lagarto é um grupo enorme, e a diferença entre duas espécies que cabem na mesma frase pode ser a diferença entre um animal de 20 centímetros que vive numa caixa de sapatos grande e um animal de cinco quilos que escava o quintal. Por isso a pergunta útil não é se dá para ter um, é qual.

Seis espécies aparecem no mercado brasileiro com alguma regularidade. Vamos a elas por ordem de facilidade, e com a parte legal de cada uma, porque há um padrão aí que ninguém costuma apontar.

Qual o melhor lagarto de estimação

A resposta curta, para quem nunca teve réptil: gecko leopardo. A seguir, dragão barbudo. E o motivo não é só temperamento, é que são também os dois mais simples do ponto de vista legal, e já se percebe porquê.

As seis espécies dividem-se em dois grupos conforme a origem, e essa divisão decide tudo o resto. A iguana verde e o teiú são fauna silvestre nativa brasileira. O gecko leopardo, o dragão barbudo, o lagarto de gola e os lagartos monitores são exóticos, vindos da Ásia, da África e da Austrália.

Fui verificar as seis na base oficial da CITES, a Convenção que regula o comércio internacional de espécies, uma a uma. O resultado é limpo demais para ser acaso:

  • Iguana iguana, a iguana verde: Apêndice II
  • Salvator merianae, o teiú: Apêndice II
  • Varanus, os monitores: o gênero inteiro listado, entre os Apêndices I e II
  • Pogona vitticeps, o dragão barbudo: não consta
  • Eublepharis macularius, o gecko leopardo: não consta
  • Chlamydosaurus kingii, o lagarto de gola: não consta

Isso importa pelo dinheiro. O artigo 24 do Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008, fixa multa por animal: 500 reais por indivíduo de espécie fora das listas de risco, e 5 mil reais por indivíduo de espécie de lista oficial brasileira de ameaçadas, incluindo, segundo a redação dada pelo Decreto nº 6.686, de 2008, as espécies da CITES. E o parágrafo 3º, inciso III, do mesmo artigo aplica a multa a quem simplesmente guarda ou tem em cativeiro animal vindo de criadouro não autorizado.

Ou seja, as duas espécies mais recomendadas a iniciantes são também as duas com menor exposição se a papelada falhar. É raro o conselho prático e o conselho legal apontarem para o mesmo lado, mas aqui apontam.

Gecko leopardo amarelo com manchas pretas pousado na palma da mao aberta de uma pessoa, ocupando pouco mais do que a propria palma

Gecko leopardo: o mais fácil de todos

Se pode ter gecko de estimação no Brasil é a pergunta com a resposta mais simples das seis. É espécie exótica, originária do Afeganistão, do Paquistão e do noroeste da Índia, e não consta da CITES. Continua a precisar de vir de criadouro autorizado com nota fiscal, como qualquer réptil, mas é a situação mais descomplicada do grupo.

Fisicamente é o oposto do que muita gente imagina quando pensa em lagarto. Fica entre 20 e 25 centímetros contando a cauda, vive dez a vinte anos, e tem pálpebras móveis, coisa que a maioria dos geckos não tem. É noturno, o que significa que não precisa da lâmpada de raios ultravioleta exigida pelas espécies que tomam sol, e isso corta uma fatia do equipamento e da conta de luz.

Come insetos vivos, e é aqui que vale ser honesto antes de comprar: ter um gecko significa ter grilos ou baratas de criação em casa, de forma permanente. Quem não se vê a fazer isso não deve comprar um gecko, e é melhor descobrir agora.

No lagarto de estimação gecko, preço e facilidade andam juntos: é também o mais acessível dos seis.

O dragão barbudo pode ser um animal de estimação?

Pode, e é provavelmente o lagarto de estimação que parece um dragão que quase todo mundo tem em mente quando procura por isso. O nome vem da papada espinhosa debaixo do queixo, que ele incha e escurece quando se sente ameaçado ou quer impressionar, e que de longe lembra mesmo uma barba de dragão.

É australiano, logo exótico, e não consta da CITES. Fica entre 40 e 60 centímetros, vive de oito a doze anos, e tem fama merecida de ser o réptil mais tolerante a manejo que existe no mercado: aceita ser pegado com uma calma que o gecko só ganha com tempo.

O preço dessa simpatia é o equipamento. Ao contrário do gecko, o dragão barbudo é diurno e precisa de lâmpada de raios ultravioleta B para produzir vitamina D e fixar cálcio, mais um ponto de calor forte para termorregular. Sem isso desenvolve doença óssea metabólica, que é a causa número um de problemas nesta espécie e é inteiramente evitável. A lâmpada também não dura para sempre: perde a emissão de raios ultravioleta muito antes de se apagar, e troca-se por calendário, não por estar queimada.

Iguana de estimação no Brasil: a mais vendida e a mais devolvida

Se pode ter iguana de estimação no Brasil, pode, com criadouro autorizado e nota fiscal. Mas das seis é a que mais acaba mal, e por uma razão simples de prever e difícil de aceitar na loja: o filhote de 20 centímetros que cabe na palma da mão chega a um metro e meio ou mais, contando a cauda, e vive 15 a 20 anos.

É herbívora, o que surpreende quem a imagina a comer insetos. A dieta é de folhas e vegetais, e dar-lhe proteína animal é um erro comum que castiga os rins ao longo dos anos. Precisa de raios ultravioleta B fortes, de calor e de um recinto alto, porque é arborícola e quer subir.

E o lagarto de estimação iguana é fauna nativa brasileira, por isso cai no artigo 34 da Instrução Normativa IBAMA nº 7, de 2015, e não na norma das exóticas. Somando a isso o Apêndice II da CITES, é a espécie com mais exigência legal e mais exposição a multa de toda a lista.

Iguana verde adulta agarrada a um ramo grosso num recinto alto, de corpo inteiro, mostrando a crista de espinhos no dorso e a cauda anelada

Teiú: o nativo que chega a cinco quilos

Se pode ter teiú de estimação no Brasil, a resposta legal é a mesma da iguana: nativo, logo criadouro autorizado e nota fiscal, e consta do Apêndice II da CITES. Como ter um teiú de estimação é, portanto, uma questão de encontrar criadouro licenciado, que é o passo mais difícil.

Mas antes da papelada vem o bicho. O teiú adulto passa facilmente de um metro e chega aos quatro ou cinco quilos. É onívoro de verdade, come desde fruta a ovos e pequenos animais, escava com força, e reduz a atividade no inverno, um comportamento natural que assusta quem não sabe que é normal. Perguntar se pode criar lagarto teiú em casa é a pergunta errada: a certa é se há espaço para um recinto, porque terrário de estante não serve.

Tem a seu favor uma coisa que os criadores repetem: é inteligente e reconhece quem cuida dele. Tem contra si tudo o resto da logística.

Lagarto de gola e lagarto monitor

O lagarto de gola é aquele que abre um colar de pele à volta da cabeça e corre em duas patas, e é australiano. Se o lagarto de gola pode ter em casa, legalmente é exótico e não consta da CITES, portanto está no grupo mais simples. Na prática é bem mais exigente do que o dragão barbudo: fica entre 70 e 90 centímetros, é arisco, e precisa de altura para trepar. É um animal para ver, não para pegar.

Quanto ao lagarto monitor de estimação no Brasil, aqui a resposta muda de tom. Monitor não é uma espécie, é um gênero inteiro, o Varanus, e vai do monitor de cauda espinhosa, com 60 centímetros, ao dragão de Komodo. O monitor-d’água que às vezes aparece no mercado passa dos dois metros. O gênero inteiro está listado na CITES, entre os Apêndices I e II, o que o coloca na faixa alta da multa, e é um animal forte, de mordida séria, que exige recinto construído de propósito. Não é animal para primeira experiência, nem para segunda.

O que lagarto de estimação come

Esta é a pergunta onde mais gente erra, porque trata lagarto como se fosse uma coisa só. As seis espécies têm quatro dietas diferentes.

O gecko leopardo é insetívoro estrito: grilos, baratas de criação, larvas como complemento. Não come vegetais. O dragão barbudo é onívoro com a proporção a mudar ao longo da vida, mais insetos em filhote e mais vegetais em adulto, e manter a dieta de filhote num adulto causa problemas. A iguana é herbívora e deve ficar nos vegetais. O teiú e os monitores são carnívoros ou onívoros conforme a espécie e o tamanho.

Há dois pontos comuns a quase todos: a suplementação de cálcio, que se polvilha nos insetos ou nos vegetais, e os raios ultravioleta B nas espécies diurnas. Cálcio sem raios ultravioleta não resolve, porque o animal não consegue aproveitá-lo. É esse par que evita a doença óssea metabólica, e é a parte do cuidado que mais se negligencia.

A iguana de estimação é perigosa?

A resposta que se encontra por aí fala da cauda, que de fato chicoteia e dói, e das mordidas. Isso é verdade e é gerível com manejo. Mas o risco real de ter réptil em casa é outro, está documentado, e quase não se escreve sobre ele em português: a salmonela.

Répteis podem carregar a bactéria parecendo perfeitamente saudáveis e limpos, sem sinal nenhum de doença. As orientações oficiais de saúde pública que li são claras e vale segui-las à letra: crianças com menos de cinco anos devem evitar contato com répteis, estes animais não devem ser mantidos em creches, e não são recomendados a pessoas com 65 anos ou mais nem a pessoas com o sistema imunitário enfraquecido, que têm mais probabilidade de desenvolver doença grave.

Para todo mundo, a regra é lavar as mãos com água morna e sabão depois de mexer no animal, no equipamento ou na comida dele, com um adulto a supervisionar a lavagem das crianças. E o equipamento limpa-se fora de casa sempre que der, e nunca na cozinha nem onde se prepara comida.

Isto não é motivo para não ter réptil. É motivo para decidir com informação, sobretudo numa casa com criança pequena ou com alguém de saúde frágil, e é exatamente a conversa que a loja não tem.

Teiu adulto de escamas pretas e brancas a caminhar sobre terra e folhas secas num quintal, de corpo inteiro e com a lingua de fora

Quanto custa um lagarto de estimação, espécie a espécie

Os valores abaixo vêm de anúncios de criadouros e de guias de venda, não de levantamento oficial, e envelhecem depressa. Servem para ordenar, não para orçamentar.

Quanto custa um gecko de estimação é a conta mais baixa: a maior parte dos anúncios de criadouro legalizado fica entre 1.700 e 2.500 reais, com variações de cor a passar dos 3.000. O dragão barbudo aparece entre 2.000 e 5.000. Quanto custa uma iguana de estimação no Brasil começa por volta dos 2.000 para filhote. Quanto custa um teiú de estimação fica entre 3.000 e 5.000 em filhote, e vale notar que textos mais antigos falavam de 800 a 1.200, valores que já não batem certo. Quanto custa um lagarto de gola de estimação é mais difícil de apurar, porque a oferta é pequena e irregular.

E, tal como em qualquer réptil, o preço do animal é a parte menor. O terrário dimensionado para o tamanho adulto, a lâmpada de raios ultravioleta B com troca periódica, o ponto de calor, o termostato, o substrato, a suplementação e a conta de luz ligada todos os dias do ano durante uma a duas décadas pesam bem mais do que a compra. Um gecko leopardo barato num terrário improvisado sai mais caro do que um gecko num terrário certo, porque acaba no veterinário.

Por falar nisso: médico-veterinário com experiência em animais silvestres é mais raro e mais caro do que clínico de cão e gato, e convém saber onde fica um antes de precisar, não depois.

Perguntas frequentes

Qual o melhor lagarto de estimação para quem nunca teve réptil?

O gecko leopardo, e com folga. Fica em 20 a 25 centímetros, vive bem num terrário pequeno, come insetos, não precisa de lâmpada de raios ultravioleta como as espécies que tomam sol, e é das poucas espécies que não consta da CITES, o que simplifica a parte legal. A segunda escolha é o dragão barbudo, maior e mais exigente em equipamento, mas muito tolerante a manejo.

Pode ter iguana de estimação no Brasil?

A iguana verde é fauna silvestre nativa brasileira, por isso só é regular se vier de criadouro comercial autorizado e com nota fiscal. E há um detalhe que muda a conversa: a iguana consta do Apêndice II da CITES, o que a coloca na faixa mais alta da multa do artigo 24 do Decreto nº 6.514, de 2008, se a origem não se provar. É o oposto do gecko leopardo, que não consta.

Pode criar lagarto teiú em casa?

O teiú é nativo brasileiro e segue a mesma regra: criadouro autorizado e nota fiscal. Mas antes da papelada vem o tamanho. Um teiú adulto passa de um metro e pode chegar aos quatro ou cinco quilos, é onívoro, escava, e reduz a atividade no inverno. Não é um animal de terrário de estante, é um animal que precisa de um recinto.

O que lagarto de estimação come?

Depende da espécie, e esta é a pergunta que mais gente erra. O gecko leopardo é insetívoro, come grilos e baratas de criação. O dragão barbudo é onívoro, com mais vegetais à medida que cresce. A iguana é herbívora e não deve comer proteína animal. O teiú é onívoro de verdade. Dar a dieta de uma espécie a outra é uma das causas mais comuns de doença.

Lagarto de estimação transmite doença?

Répteis podem carregar salmonela parecendo perfeitamente saudáveis e limpos. As orientações oficiais de saúde pública recomendam que crianças com menos de cinco anos evitem contato com répteis, que estes animais não sejam mantidos em creches, e que não sejam recomendados a pessoas com 65 anos ou mais nem a pessoas com o sistema imunitário enfraquecido. Para todos os outros, lavar as mãos com água morna e sabão depois de mexer no animal, e nunca limpar o equipamento na cozinha.

Leia também

Fontes oficiais

  • Checklist of CITES Species, base oficial da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, consultada espécie a espécie em 20 de outubro de 2026: Iguana iguana, família Iguanidae, consta do Apêndice II, com distribuição que inclui o Brasil; Salvator merianae, família Teiidae, antes classificado como Tupinambis merianae, consta do Apêndice II, com distribuição que inclui o Brasil; Varanus consta como gênero, com espécies distribuídas pelos Apêndices I e II; as pesquisas por Pogona vitticeps, Eublepharis macularius e Chlamydosaurus kingii não devolvem resultado, ou seja, estas três espécies não constam dos apêndices da Convenção.
  • Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008, artigo 24, texto compilado consultado em 20 de outubro de 2026: multa de 500 reais por indivíduo de espécie não constante de listas oficiais de risco ou ameaça de extinção, e de 5 mil reais por indivíduo de espécie constante de listas oficiais de fauna brasileira ameaçada de extinção, inclusive da CITES, nesta redação dada pelo Decreto nº 6.686, de 2008. O parágrafo 1º manda aplicar as multas em dobro quando a infração for praticada com finalidade de obter vantagem pecuniária. O parágrafo 3º, inciso III, estende as mesmas multas a quem adquire, guarda ou tem em cativeiro espécimes da fauna silvestre provenientes de criadouros não autorizados. O parágrafo 5º determina que a autoridade deixe de aplicar as sanções quando o agente espontaneamente entregar os animais ao órgão ambiental.
  • Instrução Normativa IBAMA nº 7, de 30 de abril de 2015, artigo 34, e Instrução Normativa IBAMA nº 31, de 31 de dezembro de 2002: a primeira condiciona a autorização de novos criadouros comerciais de animal de estimação de espécies nativas à publicação da lista prevista na Resolução CONAMA nº 394, de 6 de novembro de 2007, lista que não foi publicada; a segunda dispõe sobre a suspensão temporária do deferimento de solicitações de criadouros comerciais para criação de répteis, anfíbios e invertebrados com o objetivo de produção de animais de estimação para a venda no mercado interno, e aparece na base de legislação do IBAMA com a situação registrada como em vigor.
  • Orientações de saúde pública sobre salmonela e répteis, dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da agência federal de alimentos e medicamentos norte-americana, consultadas em 20 de outubro de 2026: recomendam que crianças com menos de cinco anos evitem contato com répteis e anfíbios, que estes animais não sejam mantidos em creches, e que não sejam recomendados a pessoas com 65 anos ou mais nem a pessoas com o sistema imunitário enfraquecido; recomendam lavar as mãos com água morna e sabão depois de manusear o animal, o seu equipamento ou a sua comida, com supervisão de adulto na lavagem das crianças, e não limpar o equipamento na cozinha nem em áreas onde se come ou se prepara comida; registram ainda que um réptil pode estar carregando a bactéria parecendo saudável e limpo.

Informação verificada em 20 de outubro de 2026. Os valores de compra vêm de anúncios de criadouros e de guias de venda, não de levantamento oficial, e mudam. Este texto explica as regras de posse e o perfil de cada espécie, mas não é parecer jurídico nem orientação veterinária. As normas de fauna mudam e a competência é partilhada entre a União e os estados, por isso confirme no IBAMA e no órgão ambiental do seu estado antes de comprar. Dieta, suplementação e qualquer sinal de doença são matéria de médico-veterinário com experiência em animais silvestres.